Pantanal Norte: planejando a viagem
Acho que a maior parte dos leitores já sabe, mas moro na região norte, bem perto da divisa entre Rondônia e Mato Grosso.
Isso significa dizer que, tecnicamente, o Pantanal Norte está a um dia de distância. Em uma viagem de carro, dá pra sair de manhã e chegar no início da Transpantaneira no fim da tarde. Praticamente aqui do lado.
A cidade em que moro não possui uma estrutura muito favorável quanto aos voos disponíveis. Por isso, muitas das nossas viagens dependem de um deslocamento de carro até Cuiabá, capital do Mato Grosso. Nesse trajeto, passamos por um pedacinho do Pantanal perto da cidade de Cáceres.
Por sorte, já avistamos algumas lindas aves nos rios que permeiam a região. Apesar disso, nunca senti que ali era o Pantanal de verdade. Dessa vez, no entanto, nós iríamos para o coração do Pantanal. Ele não seria um trecho do percurso, mas o grande destino da viagem.



Para quem está pensando em fazer uma viagem ao Pantanal Norte, vou tentar deixar algumas dicas práticas, principalmente de coisas que só fomos entender ao chegar lá.
Não há muito material sobre o Pantanal Norte, então há certa dificuldade em conseguir montar um roteiro, ainda mais para quem pretende fazer as coisas por conta própria.
Para início de conversa, vale explicar que o coração da viagem é a Transpantaneira, uma rodovia que tem 135 km de extensão, toda em chão, que liga Poconé a Porto Jofre.


Acredito que quando da criação da rodovia, o plano era que ela cruzasse o pantanal brasileiro todo, inclusive no Mato Grosso do Sul. Mas ela para em Porto Jofre, um vilarejo bem simples e rústico, no final da estrada.
Como a região é alagada, a estrada é elevada em vários pontos e possui muitas pontes (125 no total), o que se torna o cenário perfeito para avistamento de animais e contemplação das belas paisagens.



Quando ir
O Pantanal pode ser visitado em várias épocas, mas é mais fácil fazer a visita na época da seca, que começa mais ou menos em junho e se estende até outubro.
Na época das cheias, as estradas ficam bem ruins, muitos locais são inacessíveis e a quantidade de mosquitos beira à loucura.
Com o fim das chuvas, os mosquitos diminuem e, aos poucos, a água vai baixando, restando menos pontos alagados. Com isso, fica mais fácil avistar os bichos. Por outro lado, a paisagem não é tão bonita, pois a vegetação seca não tem o mesmo charme daquelas enormes áreas alagadas. Infelizmente, não dá para ter tudo.
Nós escolhemos fazer a visita no fim de junho, em uma época meio intermediária. Ainda com bastante água, uma quantidade aceitável de mosquitos, mas sem chuva.
Eu queria muito ver os animais, mas eu também queria ver a paisagem pantaneira da minha imaginação: campos alagados, riachos, corixos e muitas aves.





Já adianto que acertamos em cheio na época escolhida. Lógico que não dá pra cravar que o final do mês de junho seja sempre perfeito, porque isso varia muito de acordo com a quantidade de chuvas do ano e tantas outras questões climáticas. Mas essa época, mais para o início da estiagem, se mostrou bem interessante e rendeu paisagens maravilhosas.


Onde ficar
Em pesquisas aqui e ali, constatei que a forma mais eficiente de conhecer o Pantanal é escolher alguns pontos de hospedagem na Transpantaneira.
Infelizmente, não há muita informação sobre a logística de hospedagens e passeios no Pantanal Norte. Para piorar, o pouco que há não é destinado aos brasileiros.
Há alguns sites de hotéis e pousadas que sequer possuem uma página em português. Muitos relatos de viagens, vídeos e outros materiais estão apenas em inglês. Nas primeiras pesquisas, já ficou claro que o Pantanal ainda é muito tratado como um passeio para gringos.
Aqui fica uma reflexão e, ao mesmo tempo, uma crítica. Será que essa construção do Pantanal e da Amazônia como sendo destinos turísticos pensados para o público externo não está um tanto ultrapassada? Ao mesmo tempo, será que nós acabamos por não dar o devido valor a locais tão nossos?
São muitas questões e, certamente, um debate mais aprofundado sobre isso não caberia neste post. O fato é que, como o foco do Pantanal são os turistas estrangeiros, não é um passeio barato, nem acessível.
Como eu disse, para conhecer a região, o mais acertado é focar na Transpantaneira. Apesar de ser uma estrada de terra, um tanto remota, há alguns hotéis, lodges e pousadas ao longo do trajeto, os quais oferecem desde opções mais simples, quanto um grau considerável de conforto.



E como não há qualquer estrutura de restaurantes (no máximo um ou outro bar), o ideal é escolher uma hospedagem que já ofereça alimentação, assim a chance de perrengue diminui consideravelmente.
Outra coisa a considerar é que o ideal é ficar em mais de um lugar ao longo da Transpantaneira. Isso porque a estrada é longa e percorrê-la já é parte do passeio. Não à toa, ela se chama oficialmente Estrada Parque Transpantaneira.




Além do mais, as paisagens e a fauna mudam ao longo do trajeto. Por toda a região, há onças pintadas, mas elas estão mais concentradas em Porto Jofre. Por outro lado, as araras-azuis estão mais presentes no primeiro terço da Transpantaneira.
Para não ficar muito cansativo e possibilitar contato com microrregiões diferentes, uma boa pedida é escolher ao menos uns dois pontos, preferencialmente no meio e no final, assim dá para aproveitar o caminho com tranquilidade e evitar deslocamentos noturnos.
O que fazer
A maior parte dos locais para se hospedar já tem uma tarifa de hospedagem que inclui as refeições e alguns passeios, em geral do tipo safári.
Logo que comecei a pesquisar, me assustei com os preços. Mas ignorei isso e me mantive firme no propósito. Eu fui até a África fazer safári, por que não faria o mesmo no Pantanal?
Basicamente, as atrações do Pantanal Norte se resumem a passeios contemplativos e pesca. Não faço muito a linha pescadora, então nem vou me atrever a falar sobre isso.
Agora, passeios de contemplação, aí sim é comigo. E nesse quesito, o Pantanal oferece o que há de melhor: passeios de barco pelos rios, passeio de canoa pelos corixos e riachos, trilhas guiadas e safáris em veículos abertos.




Todos esses passeios têm por objetivo apreciar as belezas naturais da região, mas o foco de cada um deles varia de acordo com o interesse do turista.
Há passeios voltados à observação de aves (no amanhecer e no entardecer), passeios para observação da flora, para observação dos mamíferos, inclusive a famosa onça pintada, bem como focagem noturna e etc.





Uma coisa é certa: há opções para todos. Inclusive, para quem quer economizar, dá para tentar uma hospedagem mais em conta e fazer apenas o passeio, de carro, pela Transpantaneira. Como ela possui várias pontes, é possível observar uma infinidade de aves só nesse trajeto. Aliás, não apenas aves, mas diversos animais.



Há relatos, inclusive, de quem viu onça pintada enquanto passava pela estrada. Não tivemos essa sorte, mas vimos muitos outros bichos. Posso afirmar, sem dúvida, que a Transpantaneira no amanhecer e entardecer é um espetáculo e tanto, desses que a gente não esquece.

Enfim, o roteiro
Nossa viagem pelo Pantanal foi bem curtinha. No total, foram quatro dias por lá, sem contar os deslocamentos de ida e volta até Poconé.
Estamos a cerca de 700 quilômetros de Poconé. Então, para que a viagem não ficasse muito cansativa, decidimos pernoitar na cidade de Cáceres na ida e na volta para, só depois, seguir caminho.
Com essa parada estratégica, não foi preciso ficar em Poconé nenhuma noite. Nosso planejamento incluía apenas almoçar na cidade tanto na ida quanto na volta da Transpantaneira.
Além disso, nós optamos por dividir a viagem pela Transpantaneira em duas hospedagens: uma mais no início da rodovia e outra lá no último quilômetro, ficando duas noites em cada uma delas.
Como primeira hospedagem, a escolhida foi a Aymara Lodge, mais para o início da rodovia. Já a segunda hospedagem ficou por conta da Pousada Berço Pantaneiro, lá onde a estrada acaba. Das duas, falarei mais detalhadamente no post em que trago o relato dessa viagem, mas já adianto que foram ótimas opções.
Nossa programação envolvia os passeios oferecidos pelas pousadas, que já ocupam boa parte do tempo livre. São trilhas, caminhadas, passeios de barco e uma série de outras atividades. É o tipo de viagem que, a depender da hospedagem escolhida, já vem praticamente pronta.



Além disso, demos destaque especial aos deslocamentos entre uma e outra, já que o percurso pela Transpantaneira é um passeio por si só e precisa ser considerado como tal. Do contrário, muita coisa bacana acaba se perdendo.
Com hospedagens definidas, passeios agendados e a certeza de que a Transpantaneira seria a grande protagonista dessa aventura, só faltava uma coisa: colocar o pé na estrada.


E posso adiantar que nenhum planejamento, por mais detalhado que seja, consegue nos preparar para a imensidão do Pantanal ao vivo. Mas isso, conto melhor no próximo post, onde divido com vocês cada momento dessa viagem inesquecível.

