Torres del Paine, parte 1: O que saber antes de ir

Vamos começar essa história como deve ser.

Era uma vez, em uma cidade distante… Não, espera. Não é esse tipo de história.

Pelas imagens que vão ilustrar essa série de posts, bem que poderíamos estar falando de um desses contos, onde céu azul, lagos espelhados, montanhas nevadas e animais fantásticos se juntam para ser cenários ou personagens de aventuras sem fim.

Apesar de toda a beleza das imagens e da aura um tanto enigmática da Patagônia (e da minha inevitável inclinação para a ficção), os textos que vão ser publicados nos próximos meses serão o mais realista possível. Minha missão aqui é trazer informação e, de fato, fazer diferença na vida de quem planeja uma viagem inesquecível.

Por isso, ao invés de simplesmente compartilhar o relato da nossa viagem, vou tentar compilar e organizar as informações que foram importantes muito antes de compramos as passagens. Sabe aquele tipo de coisa que parece óbvio, mas a gente custa a encontrar nesse mundão da internet?

Então. É justamente isso que vamos tentar fazer por aqui. Explicar as coisas de modo detalhado e responder as perguntas que, naturalmente, aparecem quando a viagem está começando a ser planejada.

Há estradas dentro do Parque? Elas são boas? É preciso pagar para entrar em Torres del Paine? Como comprar ingressos? É frio? Chove muito? Preciso de um carro 4×4? É necessário estar acompanhado de um guia? Há restaurantes? Há banheiros? Pumas irão me atacar sorrateiramente? Enfim, perguntas básicas, que todo mundo acaba se fazendo (com exceção dessa sobre os Pumas, que provavelmente só eu me perguntei).

Em tese, vamos contar a história dessa viagem através de sete textos, que em alguns momentos serão mais descritivos e informativos e em outros mais leves e descompromissados.

Vamos começar com esse primeiro post introdutório, seguido de um mais dois voltados ao planejamento e questões práticas. Depois a gente entra no relato de viagem, com uma divisão por passeios e bases de hospedagem. Lógico que, entre uma informação prática e outra, vamos ter essas conversas aleatórias que tão bem definem o que é este blog.

Mas calma. Não só de texto viveremos. Sei que há uma turma que acompanha o blog pelas fotografias e, evidentemente, elas são uma parte importantíssima do nosso projeto. Justamente por isso, junto com as divagações de todo dia, vão aparecer as imagens impactantes de Torres de Paine e arredores. Imagens como essas:

Mas antes de falar especificamente dessa viagem, preciso contextualizar a escolha de Torres del Paine como nosso destino de viagem. Para isso, vamos ter que dar alguns passos atrás e rememorar uma outra viagem patagônica.

Há muitos anos, viajamos para Ushuaia, El Calafate e El Chaltén, na Argentina. Como vocês podem conferir aqui, a viagem foi muito marcante na nossa vida. Surgiu meio que do nada, mas foi uma coisa arrebatadora. Em pouco tempo já estávamos com tudo programado.

Naquela época, enquanto estudávamos sobre os passeios em El Calafate e El Chaltén, começamos a nutrir o desejo de conhecer, também, a Patagônia chilena. E foi nesse contexto que Torres del Paine apareceu na nossa vida.

Durante as pesquisas, descobrimos que Torres del Paine não ficava longe de El Chaltén e a combinação dos dois destinos na mesma viagem era bem comum. Até pensamos em tentar ajustar a nossa viagem para incluir uma travessia, mas não tínhamos tempo suficiente naquela ocasião e optamos por não fazer nada na correria.

Com isso, conhecer Torres del Paine entrou para a lista de desejos. Por várias questões, ela acabou ficando na lista de viagens futuras por vários anos, principalmente porque, assim que começamos a estudar melhor, vimos que passear por lá não era tão simples como visitar Ushuaia e El Calafate.

É que Torres del Paine não é uma cidade, mas um parque, que de tão relevante, virou quase que sinônimo da região. É óbvio, contudo, que a Patagônia chilena é muito mais que o parque Torres del Paine. A nossa viagem deixou isso muito claro.

Mas não dá pra negar que o parque é a grande estrela da região e a razão pela qual a maior parte dos turistas decide encarar a viagem.

Pra começar, vamos nos localizar geograficamente. O Parque Nacional Torres del Paine fica no extremo sul do Chile, na Região de Magalhães e Antártica Chilena, mais especificamente na província de Última Esperanza.

Ele está a cerca de 110 km de Puerto Natales, a cidade que a maioria dos viajantes usa como base, e a uns 310 km de Punta Arenas, que é onde fica o aeroporto mais estruturado. Inclusive, foi por onde chegamos e saímos.

O parque também faz fronteira com a Argentina ao norte e a leste, o que explica por que é tão comum combinar uma visita a Torres del Paine com passeios do lado argentino, que também possui destinos famosos pelas trilhas e vistas deslumbrantes.

Falando especificamente de Torres del Paine, é preciso ter em mente que se trata de um local enorme. São quase 182 mil hectares de área protegida, o que dá uma ideia do tamanho do desafio que é explorar tudo por lá.

Para ajudar na locomoção, há uma malha de estradas que corta o parque e seu entorno. Parte delas é asfaltada, mas parte é de chão batido e cascalho. Nada que impeça o passeio, mas que exige um pouquinho mais de atenção.

Além disso, o parque conta com várias entradas distintas, algumas menores, outras maiores. As principais são a Laguna Amarga, a Sarmiento, a Laguna Azul e a Rio Serrano. Cada uma delas dá acesso a diferentes setores e trilhas.

Isso significa que, dependendo do que você quer fazer no dia, a entrada que vai usar pode mudar, e o deslocamento entre uma portaria e outra pode facilmente levar mais de uma hora. Justamente por isso, planejar bem os dias antes de sair do hotel faz toda a diferença.

Uma coisa importante é que para entrar no parque, é obrigatório comprar o ingresso com antecedência pelo site oficial da CONAF, o pasesparques.cl. O processo é simples: você escolhe as datas, preenche os dados pessoais, paga com cartão de crédito e recebe um PDF com um QR Code no e-mail, que será escaneado na portaria (o ideal é baixar o PDF no celular ou imprimir antes de sair, pois o sinal de internet na região pode ser bem instável).

Ainda falando do ingresso, existem duas opções: para até três dias ou para mais de três dias. Se você pretende passar mais tempo na região, o segundo acaba sendo mais vantajoso, pois além de custar proporcionalmente menos, garante flexibilidade caso os planos mudem por causa do tempo. Aliás, na Patagônia, isso acontece com uma frequência surpreendente (aprendemos a lição da pior forma).

Em algumas portarias há totens de autoatendimento para compra presencial (portarias de Rio Serrano e Laguna Amarga), mas dado o fluxo de visitantes e a instabilidade de sinal, não recomendo depender dessa opção.

Bom, a esta altura, talvez você esteja pensando: tá, mas o que há de tão espetacular nesse parque? Bom, eu posso tentar explicar dizendo que ele conta com inúmeros lagos e montanhas, mas acho que uma imagem vai te convencer mais facilmente.

O grande destaque visual do parque é, sem dúvida, a Cordilheira Paine, que faz parte de uma cadeia montanhosa esculpida ao longo de milhões de anos pela ação de geleiras. É exatamente essa origem que explica as formas tão dramáticas e peculiares dos picos, bem como a cor dos lagos.

O principal pico é o Paine Grande, que alcança 3.050 metros de altitude e domina a paisagem. Além dele, também há os Cuernos del Paine e as famosas Torres del Paine, que não só são o símbolo do parque, mas dão nome a ele.

Lógico que as montanhas e os lagos são belíssimos. Mas o parque é muito mais que isso. As paisagens ao longo das estradas e a vida selvagem também são espetaculares. Guanacos, aves de rapina e pumas podem aparecer a qualquer momento. Spoiler: Vimos pumas nessa viagem!

Outro ponto importantíssimo sobre o parque: apesar de muitas estradas cortarem o entorno e o interior, os visitantes só conseguem acessar muitos locais por trilhas. É por isso que o parque é o paraíso do trekking.

Inclusive, um dos trekkings mais famosos entre os amantes do esporte é o Circuito W, que permite conhecer diversos pontos do parque a partir de caminhadas em trilhas pré-estabelecidas. É justamente por causa disso que mencionei, lá em cima, que a viagem para Torres del Paine não é das mais simples.

Veja só: estamos falando de um destino cujo principal atrativo é um parque enorme. Há estradas que o cruzam, mas grande parte dos atrativos depende de trilhas, que variam entre curtas e longas. E muitas dessas trilhas não são circulares, ou seja, não começam e terminam no mesmo local.

Isso significa que, a depender do local a ser visitado, você vai fazer uma caminhada enorme e o fim da trilha vai te deixar no meio do parque, sem condições de retornar ou sair no mesmo dia.

É exatamente por isso que existem os circuitos. Basicamente, eles são compostos por diversas trilhas, com alguns acampamentos no percurso, de modo que o viajante pode caminhar até não aguentar mais e aí parar para descansar.Há dois circuitos formais no parque: o W e o O.

O primeiro, mais conhecido, possibilita a visita aos pontos mais famosos e também tem uma estrutura de acampamentos e pontos de apoio mais robusta. Já o Circuito O é mais rústico, dá a volta completa no parque e, em alguns pontos, tem uma estrutura bem mais modesta.

Falarei do Circuito W no próximo post, mas essa introdução é importante porque, até pouco tempo atrás, a forma mais comum de conhecer o parque era se aventurando pelo circuito. Isso acabava me desanimando um pouco e fez com que a viagem demorasse mais do que o esperado.

Apesar de ainda não ser a coisa mais simples do mundo, atualmente há outras possibilidades para conhecer o parque. Mesmo para quem não quer dormir em acampamentos ou ter que vender um rim para pagar pelas hospedagens em hotéis caríssimos, há opções intermediárias que funcionam bem.

Além dessa questão da logística um pouco mais delicada, é preciso ter em mente que Torres del Paine está na Patagônia, onde o tempo é um personagem à parte. Há muita chuva, nevascas e um vento quase que intermitente. Por isso, é sempre bom ir de coração aberto. Você pode ter um lindo dia de sol ou uma chuva torrencial. Faz parte do rolê que é estar em um lugar extremo.

Detalhes quanto às formas de organizar a viagem, melhor época para ir e quantos dias ficar vão surgindo nos próximos capítulos. Por enquanto, quero apenas dar esse panorama geral. Estou certa de que, com ele, já dá pra começar a sonhar com a viagem e, principalmente, a organizar as ideias.

No próximo post, vou contar com mais detalhes sobre o circuito W e, mais que isso, sobre como conhecer Torres del Paine sem ele. Vou compartilhar com vocês as decisões que tomamos, por que escolhemos cada base e como isso mudou totalmente a nossa experiência.

Sei que os textos são longos, mas garanto que a viagem (pela leitura ou no mundo real) vale à pena.

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