Torres del Paine, parte 3: Dicas práticas para construir o roteiro

Quando ir e quantos dias ficar

Como estamos falando da Patagônia, é preciso ter em mente que o tempo é muito variável. Pode chover a qualquer momento, esfriar e ventar. E pode acontecer tudo isso ao longo de uma única tarde ou manhã. A chuva pode ser breve, mas também pode se estender por horas e até dias.

Essa ressalva é importante porque é preciso se preparar emocionalmente e fisicamente para lidar com essas intempéries. Faz parte da experiência enfrentar condições climáticas mais extremas.

Inclusive, depois de algumas idas à Patagônia, entendo muito bem o que Pablo Neruda quis dizer nas primeiras linhas do livro “Confesso que he vivido”: Esta lluvia fría del sur de América no tiene las rachas impulsivas de la lluvia caliente que cae como un látigo y pasa dejando el cielo azul. Por el contrario, la lluvia austral tiene paciencia y continúa, sin término, cayendo desde el cielo gris (Essa chuva fria do sul da América não tem as rajadas impulsivas da chuva quente que cai como um chicote e passa deixando o céu azul. Pelo contrário, a chuva austral tem paciência e continua, sem fim, caindo do céu cinza).

É meus caros leitores, há que se encontrar beleza e poesia mesmo quando as cores dão lugar ao cinza. Nem só de céu azul e noites estreladas se vive na vida real.

Ainda falando de tempo, a melhor época para fazer os passeios é o verão, mas também é a época mais cheia e, consequentemente, com custo mais elevado. Estações intermediárias, como outono (de março a maio) e primavera (de setembro a novembro), podem ser boas, mas são mais imprevisíveis.

Partindo dessa premissa, sempre que possível é bom reservar uns dias a mais para ficar por lá e ter um roteiro mais flexível. Afinal de contas, não faz sentido encarar uma viagem longa, quebrar a cabeça com uma logística detalhada e depois não conseguir fazer os passeios por causa do tempo.

Quando fomos (no fim de abril), tivemos lindos dias de sol, mas também dias chuvosos e bastante frio, daqueles de gerar cristais de gelo no vidro do carro.

Nós ficamos dez dias na Patagônia, sendo que cinco deles foram destinados aos passeios em Torres del Paine e arredores. Os demais dias foram divididos entre Puerto Natales e Punta Arenas.

Para quem quer ter uma visão geral do parque, fazer as trilhas principais e tirar aquelas fotos escandalosamente bonitas, é tempo suficiente. Mas para quem é detalhista, se encanta com cores, texturas, lugares no meio do nada, pássaros misteriosos e céu estrelado, digo que é pouquíssimo tempo.

Tentando equilibrar bem a balança entre custo da viagem e passeios a serem feitos, recomendo ter ao menos uma semana inteira dedicada a Torres del Paine. Assim fica mais fácil contornar dias nublados, chuvosos ou com muito vento.

Além disso, eu deixaria tranquilamente uns três dias em Puerto Natales, só para curtir a cidadezinha, que é uma simpatia, e para fazer os passeios por ali mesmo. Em Punta Arenas, ficaria uns dois dias. A cidade não é tão bonita quanto Puerto Natales, mas há alguns passeios legais que podem ser feitos nas imediações (inclusive visitar a Pinguineira).

Em resumo, com dez dias líquidos (sem contar o dia de chegada e de partida) a viagem fica perfeitinha. Menos que isso, acho apertado, porque muita legal acabará ficando de fora.

O que fazer

Antes de falar de hospedagem, logística e nosso roteiro, vale deixar claro que Torres del Paine não é um destino de um passeio só. O parque tem trilhas longas e curtas, mirantes, lagos, glaciares, vida selvagem e até navegações, então o melhor plano é combinar o que faz sentido para o seu tempo e para o seu estilo de viagem.

Nos posts seguintes cada um dos atrativos que entraram no nosso roteiro vai ser descrito de forma mais detalhada, mas vamos fazer um breve resumo deles aqui para facilitar um pouco a vida de quem já está construindo a viagem dos sonhos.

Dentro do parque, os destaques mais clássicos são a trilha até a Base das Torres, o Vale Francês, o Glaciar Grey, os miradores Cuernos e Condor, além do Salto Grande e do Lago Pehoé. Cada um deles tem uma proposta diferente, então vale entender rapidinho o que esperar de cada um antes de montar o roteiro.

A trilha até a Base das Torres é a mais famosa e também uma das mais exigentes. São cerca de 20 a 22 quilômetros ida e volta, com duração média de oito a nove horas, dependendo do ritmo e das paradas.

A caminhada pelo Vale Francês também é muito procurada. Em sua versão mais clássica, até o Mirador Francês, passando pelo acampamento Italiano, o trajeto fica em torno de 20 quilômetros ida e volta, com dificuldade moderada a alta.

Já o Glaciar Grey é uma trilha um pouco mais amigável, embora ainda exija preparo. O passeio mais comum fica na faixa de 10 a 11 quilômetros ida e volta, com dificuldade moderada. É uma caminhada que vale muito a pena para quem quer ver de perto o glaciar e os icebergs do Lago Grey.

O Salto Grande é um passeio simples e rápido, com cerca de dois quilômetros ida e volta e dificuldade baixa. É a partir dele que tem início a trilha para outro atrativo, o Mirador Cuernos. A trilha até o mirador é curta e pode ser uma boa opção para encaixar em um dia mais leve. O trecho tem mais ou menos cinco quilômetros entre ida e volta, com dificuldade baixa a moderada.

Já a trilha até o Mirador Condor é curtinha, mas a subida é íngreme e faz a trilha parecer mais puxada do que o tamanho sugere, o que precisa ser levado em conta. A vista de lá, contudo, é linda, principalmente porque fica bem pertinho de uma área super fotogênica do lago Pehoe.

Considerando que Torres del Paine é conhecido por ser um destino de trekking, era de se esperar que a maior parte dos atrativos fosse mesmo nessa linha. Mas se enganada quem pensa que é apenas isso que o lugar tem a oferecer.

Que as trilhas são um espetáculo, isso é fato. Mas o parque também é uma excelente opção para a observação de fauna. Qualquer caminhada despretensiosa pode render encontros com guanacos, condores e, com sorte, até pumas.

Fora do parque, mas ainda nas imediações dele, dá para incluir no roteiro setores e cenários mais tranquilos, quando o objetivo é mais contemplar a estrada e os mirantes do que fazer uma caminhada necessariamente.

É justamente essa combinação que ajuda a distribuir melhor os passeios nos dias disponíveis, evitando que a viagem se transforme em uma corrida maluca.

Além disso, a viagem quase sempre acaba incluindo Puerto Natales e Punta Arenas, que funcionam bem como bases complementares, principalmente porque o parque não é assim tão perto dos aeroportos disponíveis.

Puerto Natales além de ser uma base possível para se hospedar durante a visita ao parque, é uma cidade encantadora por conta própria, com ótimos restaurantes, cafés e uma vista para o mar que impressiona. É muito mais que um local de passagem e vale ser aproveitada com calma. Nas imediações, está a Cueva del Milodón, que é um passeio bem interessante.

Punta Arenas, por sua vez, costuma ser a porta de entrada aérea para a região e também vale a visita por conta de passeios como a pinguineira, na Ilha Magdalena, e passeios mais urbanos, que rendem boas fotos.

Onde se hospedar (para quem não acampará no parque)

Toda escolha tem uma parte boa e uma ruim. Não fosse assim, nem haveria espaço para dúvidas. No fim das contas, tudo tem a ver com o que se encaixa melhor no que você está buscando.

Quem decide fazer os circuitos acampando no parque tem uma imersão maior na natureza. Faz trilhas que somente quem vai passar a noite lá dentro pode fazer e vivencia a energia de acampar, conhecer gente nova e pode seguir um roteiro mais conhecido. E tudo isso com um custo relativamente razoável.

Para quem está disposto a investir mais na viagem e decide se hospedar em dos hotéis com tudo incluído vai ter um elevado nível de conforto, acompanhamento nas trilhas e caminhadas, bem como as facilidades de ser sempre deixado no início das trilhas (em alguns casos parte da trilha pode ser feita à cavalo).

Por outro lado, quem decide fazer algumas trilhas, mas dormir nas imediações do parque, paga um pouco mais caro do que a turma que vai acampar, mas muito menos do que quem fica em dos hotéis de luxo. No entanto, abre mão de conhecer alguns pontos lindos do parque e tem que lidar com deslocamentos de carro para lá e para cá.

Falando especificamente nos deslocamentos, eles também tem prós e contras. As estradas são lindas e há possibilidade de avistar animais pelo caminho, mas em contrapartida, os trajetos podem impactar diretamente no tempo que será dedicado às trilhas. Principalmente se você se deparar com um grupo de ovelhas na estrada, como foi o nosso caso.

Acredito que já esteja implícito pelos posts anteriores que nós não acampamos no parque. Pra gente, foi uma decisão acertadíssima, que fez todo sentido. Considerando essa nossa escolha, vou trazer mais informações para quem pretende seguir um roteiro mais parecido com o nosso.

Antes de a viagem começar, enquanto ainda estávamos entre mapas e planos, me senti completamente perdida em algumas ocasiões. Primeiro porque a oferta de hospedagem perto do parque é muito limitada. Locais com preço razoável, então, são quase uma raridade. Segundo porque não foi tarefa simples entender a questão das entradas, de onde saíam os passeios e por aí vai. Definitivamente, montar um roteiro funcional, com poucos dias de viagem, não foi uma tarefa simples.

Chegamos a pensar em ficar a viagem toda em Puerto Natales e fazer bate e volta todo dia, mas abandonamos essa alternativa, porque perderíamos muito tempo nos deslocamentos. Depois, consideramos escolher um hotel perto do parque e ficar nele do início ao fim. Mas também vimos que não era a melhor opção, porque o parque é muito grande e as entradas são distantes umas das outras.

Após muita pesquisa e, principalmente, depois de ter conhecido as regiões pessoalmente, posso dizer que o melhor caminho é dividir a hospedagem em algumas bases. E, para tanto, tenho algumas sugestões, que cada um pode ajustar de acordo com os objetivos da viagem.

Para quem vai fazer a trilha até a Base das Torres, uma boa opção é ficar ao menos duas noites no Hotel Las Torres. Ele fica bem no início da trilha e com certeza facilita muito o passeio. No entanto, ele não é barato. Bem por isso, acabamos não ficando lá.

Uma alternativa que ajuda bastante, porque fica bem mais perto do início da trilha do que Puerto Natales, é ficar em Cerro Castillo, um vilarejo a uns 40 km da entrada Laguna Amarga. Ficamos lá, em uma pousada muito legal chamada El Ovejero Patagónico. Além de a pousada ser uma boa opção, Cerro Castilho é um lugar bem simpático.

Já para quem vai fazer as trilhas de Los Cuernos, Salto Grande, Condor, Glaciar Grey e afins, recomendo ficar no setor Río Serrano.

Lá fica a Villa Río Serrano, com excelentes opções de hospedagem, desde hotéis mais chiques até acampamentos. A Villa está perto da Portaria Serrano, possibilitando que locais dentro do parque, como o Lago Pehoé, Pudeto e Lago Grey possam ser visitados sem grandes dificuldades.

Nós escolhemos ficar em uma tenda muito confortável, mas havia muitas cabanas rústicas e charmosas nas imediações. A maior parte dos hotéis já tem restaurante, o que também é uma vantagem e tanto.

Depois de visitar o local, tenho a impressão de que o Río Serrano é o setor mais organizado e estruturado para se hospedar nas imediações do parque. Mas, como disse, fica fora de mão para quem vai fazer o passeio às Torres, já que está longe das portarias Laguna Amarga, Sarmiento e Laguna Azul.

Uma outra possibilidade é ficar alguns dias nas imediações do parque e outros em Puerto Natales. Apesar da distância, a estrada é muito bonita e já é um passeio por si só.

Lógico que ficar hospedado lá e ir para o parque não funciona bem em dias de trilhas longas, mas para um dia mais light de passeio pelo parque, é uma possibilidade bastante válida, com a vantagem de ter hotéis lindos, a exemplo do que ficamos, o Simple Patagônia.

No fim das contas, escolhemos nossas bases de acordo com os passeios planejados para cada dia Para aproveitar o parque, combinamos hospedagens em dois pontos mais perto dos atrativos que queríamos visitar (ficamos em Cerro Castillo e Río Serrano). Além disso, ficamos em Puerto Natales e aproveitamos para fazer passeios mais leves, sem que o deslocamento cidade-parque se transformasse em um fator negativo.

Aqui uma recomendação: independentemente da base que você escolher, é preciso reservar com bastante antecedência. As opções de hospedagem nas imediações do parque são poucas e esgotam rápido, especialmente entre dezembro e março.

Chegamos a nos deparar com algumas opções que gostaríamos de ter escolhido, mas que já estavam lotadas quando fomos pesquisar, antão, não cometa o mesmo erro.

O nosso roteiro

Para os guerreiros que seguiram firme na leitura até aqui, enfim chegou a hora do nosso roteiro!

Já adianto que o roteiro que vou apresentar é exatamente o que planejávamos fazer. Na vida real, as coisas não saíram exatamente igual. Mas sabe que algumas das mudanças acabaram trazendo surpresas muito boas?

Farei suspense e não darei mais detalhes agora, mas no decorrer dessa longa série de posts vocês vão ver que houve momentos em que os planos tiveram que ser totalmente alterados. Por enquanto, compartilho o nosso roteiro inicial, até porque acho que ele serve como um bom ponto de partida para quem está planejando a viagem.

Ao todo, foram dez dias de viagem (contando o dia de chegada e de partida), começando e terminando em Punta Arenas. A ideia era aproveitar cada base ao máximo, otimizando o curto tempo disponível. No fim das contas, o nosso planejamento inicial foi mais ou menos esse:

Dia 1: Chegada em Punta Arenas à noite. Jantar e descansar.

Dia 2: Passear pela cidade, buscar o carro, ir ao supermercado e partir com destino a Puerto Natales depois do almoço.Passear por Puerto Natales, jantar e descansar.

Dia 3: Pegar a estrada em direção a Cerro Castillo, parando na Cueva del Milodón e trafegando pela estrada Y-200. Dormir em Cerro Castillo.

Dia 4: Sair de madrugada, entrar no parque pela Portaria Laguna Amarga e fazer a trilha até a Base das Torres. Sobreviver e voltar para dormir em Cerro Castillo.

Dia 5: Fazer o check out no hotel de Cerro Castillo e passear pelo parque de carro, até chegar ao setor Río Serrano para dormir.

Dia 6: Retornar ao parque cedinho e fazer algumas trilhas mais curtas, como Salto Grande e Los Cuernos, Mirador Condor e Glaciar Grey. Sair do parque à tarde e ir para Puerto Natales.

Dia 7: Dirigir novamente até as imediações do parque e fazer a trilha Ferrier Lookout (uma trilha menos badalada, mas com uma linda vista), parando em mirantes no caminho. Voltar para dormir em Puerto Natales.

Dia 8: Sair de manhã de Puerto Natales e ir para Punta Arenas. Passear pela cidade à tarde.

Dia 9: Ficar em Punta Arenas e fazer passeios nos arredores;

Dia 10: Pegar o voo de volta ao Brasil.

Em resumo, nossa ideia foi ficar um dia em Puerto Natales na chegada e dois dias mais para o fim da viagem. No meio disso, reservamos três dias de hospedagem nas imediações do parque e mais três dias em Punta Arenas, um no início da viagem e dois no final, antes de pegar o voo de volta.

Sei que essa viagem está gerando uma série de textos mais longa, mas juro que é por uma boa causa. A verdade é que estou tentando colocar aqui tudo o que tive dificuldade para descobrir enquanto estudava sobre Torres del Paine.

São tantos detalhes que, muito provavelmente, algumas coisas vão ficar de fora. Ainda assim, a intenção é boa e espero, de verdade, que ao final vocês estejam convencidos a embarcar nessa aventura. Se nada mais for suficiente para colocar Torres del Paine no seu coração, estou certa de que as cores desse amanhecer cumprirão essa missão:

No próximo post começamos o diário de bordo: vou contar como foi a chegada à Patagônia chilena e nossos primeiros dias entre Punta Arenas, Puerto Natales e Cerro Castillo. Nos vemos em breve!

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