Punta Arenas: o fim de uma viagem inesquecível

no início dessa série eu disse que, apesar de toda a beleza e da aura enigmática da Patagônia, tentaria ser o mais realista possível.

Mas, depois de tudo que vivemos, fica difícil não escorregar um pouquinho para a ficção. Porque a verdade é que a Patagônia realmente parece um conto, com seus lagos espelhados, montanhas nevadas e animais fantásticos aparecendo quando a gente menos espera.

Esse é nosso último post. E confesso que escrevê-lo me obriga a concluir essa viagem. Sempre brinco que uma viagem, para mim, gera ao menos três: a primeira enquanto planejo, a segunda enquanto vivencio a experiência e a terceira quando escrevo sobre ela. A conclusão dos textos, portanto, encerra oficialmente essa viagem.

No nosso último dia em Puerto Natales acordamos tranquilos, tomamos café com calma e pegamos a estrada.

Depois de algumas horas aproveitando o trajeto, já sabendo que a cada quilômetro nos aproximávamos mais do momento da despedida, retornamos à cidade que nos acolheria pelos próximos dois dias: Punta Arenas.

O dia estava nublado e fazia bastante frio. Ainda assim, fizemos algumas paradas no caminho para fotografar flamingos que estavam em um dos muitos lagos à margem da estrada (um daqueles encontros inesperados que a Patagônia reserva). Além disso, paramos para ver guanacos e algumas esculturas em alusão aos ventos patagônicos.

Já era perto das duas da tarde quando chegamos à Punta Arenas, então fomos direto almoçar. De cara, já ficamos impressionados com o movimento da cidade. Nós havíamos chegado por Punta Arenas, mas como foi um momento meio tumultuado, não tivemos tempo de conhecer o centro da cidade.

Além disso, depois de alguns dias totalmente imersos em paisagens mais bucólicas, cortando parques e estradas quase desertas, voltar para uma cidade maior exigia algumas horas de adaptação.

Para o almoço, escolhemos uma sanduicheira chamada Ruta 9, bem no centro, com uma proposta meio fast food, bem descontraída. Estava tudo bem gostoso e o preço era super justo, então vale a visita, ainda mais para uma refeição sem muitas pretensões.

De lá seguimos para o hotel La Yegua Loca, reservado anteriormente pelo Booking. Preciso dizer que alguns dos parágrafos seguintes serão destinados a falar do hotel, que foi uma experiência um tanto quanto inusitada.

Nossa escolha de hospedagem se baseou em avaliações lidas, então só fomos saber mesmo como era o hotel ao chegar. Havíamos visto vídeos de quem se hospedou no local e tínhamos uma ligeira ideia de que seria um pouco diferente, mas nada como a vida real.

A proposta do hotel é ser uma hospedagem temática, inspirada em um pueblo patagônico, bem focado na questão rural, daí o nome. Confesso que isso me pareceu um pouco estranho, mas dentre os hotéis da cidade, esse é o que tinha uma das melhores avaliações.

Cada quarto era decorado em alusão a uma profissão. O nosso era o do carpinteiro, então o quarto vinha todo “enfeitado” com ferramentas e afins. Não tem como isso ficar bonito, mas quando penso que também havia um quarto com o tema açougue, acho que saímos no lucro 😂.

Brincadeiras à parte, tenho que ser sincera. Apesar dessa excentricidade, não posso reclamar quanto ao quesito conforto. Cama excelente, chuveiro muito bom e roupas de cama de qualidade. Havia até uma pantufinha de lã para usar, uma graça. Então, apesar da proposta peculiar, vale a pena se hospedar lá e eu ficaria novamente.

Passado o choque inicial com o hotel, saímos para andar pela cidade de Punta Arenas e logo paramos para tomar um café. Fomos ao Wake Up Coffee Lab, um lugar lindo e muito aconchegante. Pedimos um café e um bolo de cenoura com cobertura de cheesecake. Sensacional.

Depois da pausa para o café fomos caminhar pelo centrinho da cidade. Apesar da proximidade com Puerto Natales, Punta Arenas é completamente diferente. É uma cidade maior, mais antiga, com construções e espaços mais tradicionais.

Encerrada a caminhada, voltamos ao hotel, pegamos o carro e fomos conhecer uma área comercial da cidade chamada Zona Austral, um conglomerado de lojas nas quais, em tese, os produtos são mais baratos por haver isenção de impostos. Achei uma cilada, com preços até acima da média.

Saímos de lá e fomos a um shopping chamado Espacio Urbano, pois estava chuvoso e não havia mais nada a fazer na cidade a não ser aproveitar a tarde para umas comprinhas.

Andamos um pouco pelo shopping, fomos ao mercado e depois fomos até o restaurante Luan’s para jantar. Fellipe pediu um atum, que estava lindo, e eu pedi Arepas (uma espécie de tortilha de milho comum na Colômbia).

Encerrado o jantar voltamos ao hotel e fomos descansar. No outro dia, tomamos café no hotel. Tivemos, aí, mais uma boa surpresa com nossa hospedagem. O café da manhã é bem legal. Há alguns itens dispostos sobre a mesa, como frutas, sucos e cereais. Mas o prato principal, por assim dizer, é escolhido em um menu, que me pareceu bem completo.

Depois de aproveitar o café, fomos fazer um passeio até Fuerte Bulnes, que fica no Parque Estrecho de Magallanes, a uns 50 km da cidade. Em tese, do Fuerte é possível avistar baleias em dias mais limpos. Não era nosso caso. O dia estava bem fechado, embora inicialmente sem chuva, mas ainda assim fomos até o parque.

No trajeto, que vai ladeando o estreito, tivemos a sorte de ver golfinhos. Como isso aconteceu enquanto estávamos na estrada, de carro, não deu tempo de fotografar, mas foi uma grata surpresa.

Quando, enfim, chegamos ao parque, começou a chover. Entramos mesmo assim, porque somos teimosos. Aproveitamos para conhecer o simpático museu, com uma pequena exposição sobre a história da região. Ficamos fazendo hora por lá e até tomamos um café para ver se o tempo melhorava, mas nada feito.

Decidimos, então, voltar para a cidade. No trajeto ainda paramos no Puerto del Hambre para algumas fotos, aproveitando que vários pássaros estavam amontoados sobre uma pedra.

Ainda chovia e fazia bastante frio, então nossa parada foi bem rápida. Voltamos para o carro e seguimos até a cidade. Como já havia passado da hora do almoço, fomos fazer um lanche no Wake Up Brunch, que fica embaixo da cafeteria que havíamos visitado no dia anterior.

De lá fomos até uma lagoa que há na cidade, o Humedal Tres Puentes. Fotografamos alguns flamingos e pudemos observar a infinidade de patos no local.

Como ainda estava chuviscando, fomos novamente ao shopping. Andamos um pouco por lá e voltamos para o hotel para jantar, arrumar as malas e descansar.

O jantar no hotel foi mais uma boa surpresa. O restaurante, que havíamos conhecido no momento do café da manhã, fica ainda mais agradável à noite. Apesar de cheio, o serviço foi bem eficiente e a comida estava bem saborosa. Eu pedi salmão e Fellipe cordeiro. Ambos estavam bons, mas o cordeiro estava espetacular.

Ah, o restaurante atende não hóspedes também, então é uma boa alternativa para quem estiver em Punta Arenas e quiser aproveitar um lugar agradável e com boa comida.

Encerrado o jantar, fomos arrumar as malas e descansar, pois nosso voo sairia no outro dia por volta das dez e era preciso deixar tudo organizado.

No dia seguinte, oficialmente último dia na Patagônia, acordamos bem cedo, tomamos um café mais simples, com alguns itens mais básicos e seguimos para o aeroporto. Devolvemos o carro, fizemos os procedimentos de imigração e então, do saguão, a Patagônia nos deu seu presente de despedida.

O sol começava a nascer bem na nossa frente, tingindo o céu de laranja e dourado. Ficamos ali, quietinhos, admirando mais uma vez o nascer do sol. Chegamos com o sol nascendo e saímos do mesmo jeito. Não poderíamos ter despedida melhor. Uma pena que me perdi nas cores e esqueci de fotografar.

Existem certas coisas que são bem marcantes e não importa quantas vezes aconteçam, sempre haverá um novo detalhes, uma nova sensação. Ainda bem. Coisa mais sem graça seria não conseguir redescobrir os momentos, os lugares e as pessoas.

Essa não foi a primeira viagem para a Patagônia, mas durante todos os dias que passamos lá, parecia que tudo era novidade. Há quase dez anos fomos para Ushuaia e El Calafate, na Argentina. Foi maravilhoso, mas parece que desta vez houve mais intensidade e imersão.

Não sei se fui mais acolhida pela Patagônia chilena ou se o tempo apagou um pouco as cores da Patagônia argentina, mas nem os dias nublados tornaram as paisagens menos extraordinárias.

O fato é que eu fiquei, e ainda estou, completamente encantada com Puerto Natales e Torres del Paine, já fazendo planos de voltar e explorar com mais calma todos os cantinhos do lugar. Que venham novas aventuras!

Assim, me despeço. E o faço trazendo as palavras de Neruda, porque esse aqui também é um blog de poesia e coisas aleatórias.

“Eu me despeço.
Volto à minha casa, em meus sonhos.
Volto à Patagônia, aonde o vento golpeia os estábulos e salpica de frescor o Oceano.
Sou nada mais que um poeta: amo a todos, ando errante pelo mundo que amo.”

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