Trilha até a Base das Torres: A estrela de Torres del Paine
O post é para falar sobre a trilha até a base das torres (e sim, vamos trazer todos os detalhes desse rolê), mas tenho que tratar dos bastidores desse dia épico. Ou melhor, da noite que antecedeu a aventura.
Depois de arrumar as mochilas, conferir tudo algumas vezes, separar as roupas e ajustar o despertador, chegou aquele momento de fechar os olhos e dormir. Uma boa noite de sono é fundamental para ter bom desempenho em atividades que exigem mais esforço físico.
Até aí tudo bem. A teoria estava certinha. Mas daí a conseguir dormir tranquilamente é uma distância bem grande. Um misto de medo, ansiedade e adrenalina tomava conta dos meus pensamentos.
Essa viagem para Torres del Paine não havia surgido só para ver as torres de perto, mas é lógico que essa trilha era um dos principais motivos para colocar a patagônia chilena no nosso radar. E não era uma trilha curta nem simples. A maior parte dos relatos que havia lido classificava como de moderada a difícil.
Claro que isso é meio subjetivo e leva em conta o preparo físico de cada um, as condições do tempo e tudo o mais. Mas é evidente que uma trilha de mais de 20 quilômetros, com inclinação de quase mil metros, não é das coisas mais simples do mundo.
Somos acostumados a fazer trilhas mundo afora, mas a última vez que havia feito uma trilha mais pesada tinha sido há mais de oito anos, na Nova Zelândia, quando fizemos a travessia do Tongariro.

Junto com o receio de não conseguir fazer a trilha até a base das torres em razão do nível de dificuldade, batia aquele medo do tempo estar muito instável. Não são poucos os relatos de pessoas que fizeram a trilha toda e, quando estavam chegando perto das torres, se depararam com tudo coberto por neblina.
Contudo, desistir sem tentar, definitivamente, não era uma opção.
Acordamos cedo, nos arrumamos, tomamos café e seguimos em direção ao parque. Saímos do hotel por volta das oito, um pouco mais tarde do que o planejado. Ainda estava escuro. Ventava bastante e estava um frio daqueles.
Conforme fomos avançando no trajeto, o dia foi clareando. Sem exageros, foi o nascer do sol mais lindo que já vi. Se havia alguma dúvida sobre ser aquele o dia perfeito para a nossa trilha, elas foram dissipadas por completo.


Em questão de minutos passamos da penumbra a uma explosão de cores, que iam de violeta a laranja e pintavam as nuvens e as montanhas. Depois de algum tempo de estrada, já era possível avistar as Torres del Paine se destacando na cordilheira.

Apesar da intenção de ir direto para o início da trilha, foi impossível não dar uma paradinha para fotos. Paramos no Mirador Sarmiento, cuja vista estava especialmente bonita naquela manhã, e seguimos em direção à entrada do parque (portaria Laguna Amarga).

Nossos ingressos já estavam comprados, mas é preciso passar na portaria para que sejam validados. Com isso, estacionamos nas imediações da portaria, fizemos os trâmites necessários e aproveitamos para ir ao banheiro e ajeitar os últimos detalhes.
Da Portaria Laguna Amarga seguimos, de carro, por mais alguns quilômetros até o Centro de Boas-Vindas, onde há um estacionamento.
Lá, deixamos o carro e seguimos a pé. O início da caminhada é paralelo a uma estrada que dá acesso ao Hotel Las Torres. A trilha começa mesmo a partir do hotel, então, quem está hospedado lá acaba economizando uns dois quilômetros de caminhada.
Pode não parecer muito, mas no contexto de uma trilha de 20 quilômetros, dois quilômetros a mais fazem uma diferença considerável.


Como tive muitas dúvidas sobre a trilha até a base das torres antes de ir, mais especificamente quanto a dificuldade e características do trekking, vou deixar um relato bem descritivo de como foi essa aventura.
A partir do hotel, a trilha já fica com cara de off-road. Ela até engana no início, com alguns trechos tranquilos, mas depois são quase quatro quilômetros de subidas contínuas, quase tudo a céu aberto e com paisagens meio sem graça, que acabam desanimando um pouco.

Passados esses quatro quilômetros de subidas que parecem intermináveis, chegamos a um trecho bem bonito, com uma vista incrível do Vale do Rio Ascencio. Ali a trilha começou a fazer sentido pra mim, porque até então eu estava vivendo a fase do arrependimento (aquela em que você se pergunta o porquê de inventar essas coisas).




O trajeto, então, chega em um trecho que intercala subidas e descidas, para a alegria das panturrilhas já cansadas. Depois de uns dois quilômetros nessa brincadeira, chegamos mais ou menos na metade do percurso de ida, onde fica o Acampamento Chileno.
Quem está fazendo um dos circuitos geralmente dorme no acampamento na ida ou na volta, a depender da programação. E quem optar por ficar um dia dentro do parque também tem essa opção, sempre lembrando que as reservas precisam ser feitas com antecedência.
Antes de continuar com a descrição da trilha, preciso dizer que o acampamento me surpreendeu positivamente. Achei bem simpático e aparentemente organizado. Há um restaurante básico, umas mesas do lado de fora e algumas barracas estrategicamente alocadas em uma encosta, sob árvores. Além disso, o acampamento está bem ao lado do rio, no meio de uma paisagem bem bonita.



Como nossos planos não envolviam dormir no acampamento, tínhamos que conseguir concluir a trilha toda no mesmo dia e não dava para ficar muito tempo de bobeira. Por isso, fizemos uma pausa só para ir ao banheiro, tomamos um café, comemos algumas frutas secas e seguimos.
O trajeto continuou por alguns quilômetros em trecho mais amigável, à sombra de árvores em um bosque de Lengas, sem muito desnível. Quase no final dele há uma bifurcação, que marca o início do pedaço mais complicado da trilha. É nesse ponto, inclusive, que há um controle de horário para garantir que ninguém fique “preso” na trilha após a noite.





Depois dele, as árvores vão dando lugar a um terreno mais hostil, com muitas pedras grandes e soltas. A subida é bem íngreme e longa, se mantendo assim por uns dois quilômetros.
Sem dúvida é a parte mais difícil da trilha, exigindo muito das pernas, já cansadas pela longa caminhada. Confesso que nessa parte final, com a inclinação considerável e a trilha composta por muitas pedras soltas, cheguei a pensar se realmente valia a pena.
Não me faltava vontade, mas as pernas já estavam até bambas. Ainda bem que a parte mais difícil fica no final, porque aí vem aquele pensamento: poxa, você chegou até aqui, não vai desistir agora, né?


E pensando assim, achando forças de onde já não havia, chegamos à base das torres. Olha, o caminho não é fácil, mas o lugar é espetacular. E para nossa sorte, o esforço foi recompensado com um dia muito bonito, com visibilidade perfeita, apesar de nublado em alguns momentos.
Você sobe até não aguentar mais e aí, de repente, dá de cara com um lago em um tom de verde que nem sei ao certo descrever (que oscila entre o turquesa e o esmeralda), rodeado por montanhas mais baixas e pelas torres que parecem brotar da cordilheira.



É um lugar impressionante! Mais do que a paisagem em si, o que se destaca é a sensação. Depois de horas de esforço, dor nas pernas e momentos de dúvida, você chega lá e parece que o mundo para por alguns segundos. Você se sente minúsculo diante daquelas torres e, ao mesmo tempo, gigante por ter chegado até ali.
Ficamos por lá algum tempo, contemplando a paisagem e recuperando a energia. Aproveitamos para comer alguma coisa (estávamos completamente sem forças) e começamos o retorno. Como demoramos bastante para subir, tínhamos que começar a descida logo para tentar terminar a trilha antes de o sol se pôr.

Aqui um detalhe importante: como essa trilha é longa e demora entre sete e dez horas para ser concluída, há algumas regras quanto aos horários em que pode ser feita, para evitar que as pessoas fiquem se perdendo pelo parque à noite.
Por isso, até as nove e meia da manhã você precisa entrar no parque para começar a trilha. Até as 14 horas precisa passar pela bifurcação depois do Refúgio Chileno e até as 16 horas precisa sair da Base das Torres e começar o retorno.
Nesses pontos específicos há guardas do parque para garantir que ninguém desrespeite os horários. Quem sai da Base das Torres no último horário, inclusive, desce acompanhado dos guardas.
Como nós chegamos à Base das Torres por volta das 15 horas, ficamos uns quarenta minutos e já começamos a descida. Em geral, a descida é mais fácil, mas no caso dessa trilha, especialmente na parte com as pedras mais soltas, descer é bem complicado, pois exige muito do joelho.

Com cuidado fomos voltando, mas nossa caminhada rendeu menos do que o esperado. Já era perto das cinco da tarde quando chegamos ao Acampamento Chileno. Lá comemos uns sanduíches que havíamos levado, descansamos um pouco e voltamos à trilha.
Tivemos alguns imprevistos nesse retorno, com botas machucando e joelhos reclamando, então acabamos fazendo o restante do percurso ainda mais devagar, até para evitar alguma lesão.
Em virtude disso, terminamos a trilha já à noite. Ainda bem que Fellipe havia levado uma lanterna, que ajudou demais na parte final, onde não dava sequer para enxergar a trilha com exatidão. Para deixar as coisas mais dramáticas, haviam alguns cavalos nas proximidades da trilha e eu insistia em me lembrar das placas que avisavam sobre os pumas.

Sem pumas e ou qualquer imprevisto relevante, encerramos a trilha por volta das oito e ainda conseguimos pegar o Centro de Visitantes aberto. Lá, compramos uns sanduíches e fomos para o carro, pois ainda tínhamos que chegar ao hotel. O percurso foi muito tranquilo, apesar de alguns pequenos trechos de estrada de chão na saída do parque.
Em que pese ter ficado encantada com o passeio e de, no fim das contas, tudo ter saído bem, hoje faria algumas coisas diferentes. É importante estar com o condicionamento físico em dia. A trilha não é apenas longa, mas complicada. Já havíamos feito trilhas longas antes, mas o percurso era mais fácil, com menos inclinação e solo mais regular.
E tem a questão do peso das mochilas. Em passeios longos, ainda mais em locais com temperatura variável, a gente sempre acaba levando mais coisas. Por isso, além do cansaço da caminhada em si, ainda há o esforço da coluna. Nesse ponto, acho que pequei um pouco. Me preparei para a caminhada, mas acabei não fazendo treinos específicos para a lombar.
Já que estamos falando de dicas, vale mencionar o que não pode faltar na mochila para esse dia. Levo em conta a nossa experiência ao longo dos anos e também as características dessa trilha específica:
- Água: no mínimo um litro por pessoa. Há pontos de reabastecimento no Acampamento Chileno, então dá levar menos de dois litros cada um;
- Lanche reforçado: frutas secas, castanhas, barrinha de cereal e um sanduíche caprichado para o retorno;
- Corta-vento impermeável: o vento é constante e a chuva pode aparecer a qualquer momento;
- Protetor solar e óculos de sol: nos trechos a céu aberto, o sol castiga, apesar do frio;
- Lanterna: torçam para não precisar, mas levem 🙂
- Kit básico de primeiros socorros.
Outra coisa: como a trilha pode se estender mais que o planejado, o ideal é começar mais cedo. Nós acabamos começando depois das nove e isso fez com que terminássemos à noite, o que acaba sendo perigoso.
Por fim, mais um conselho: depois de conhecer o Refúgio Chileno, acho que seria uma boa se hospedar lá quando for fazer a trilha. No ápice do cansaço, ao invés de enfrentar o caminho de volta inteiro, você vai ter um lugar para descansar. Acho que isso facilita muito as coisas.
Bom, depois de um dia extenuante, enfim chegamos ao hotel e fomos descansar. Concluído o desafio, sempre vem aquela sensação de dever cumprido. E olha, tenho que dizer: não há dor nas pernas que supere esse momento de glória.


Sobrevivemos à trilha até a Base das Torres com joelhos reclamando, mas coração transbordando de alegria. No dia seguinte, resolvemos pegar leve e cruzar o parque de carro, descobrindo miradores lindos até chegar a um simpático lugar chamado Río Serrano.
No próximo post, conto como foi essa travessia, nossa experiência dormindo em uma tenda e detalho os dias de chuva que mudaram os nossos planos.
