Passeio de carro por Torres del Paine

Pode não parecer uma escolha muito óbvia, mas um passeio de carro pelo parque Torres del Paine é uma excelente forma de visitar a região. Em geral, as estradas são boas, mesmo as que são de chão batido, e as paisagens são deslumbrantes.

Como vocês viram no post anterior, dedicamos um dia a fazer a trilha até a base das torres. Evidentemente, o dia pós trilha tinha que ser mais leve, afinal não há corpo que aguente dias seguidos de exercício pesado! Ainda mais para quem não é assim tão atleta.

Tendo isso em mente e já cientes de que precisaríamos de um dia de descanso, inserimos no roteiro um dia de passeio de carro pelo parque, dedicado a conhecer miradores e lagos pelo caminho entre Cerro Castillo e a Villa Rio Serrano, onde ficava nossa próxima hospedagem.

Para ir de Cerro Castillo até a Villa Rio Serrano não é preciso, necessariamente, entrar no parque. Há caminhos externos que ligam os dois locais. No entanto, a gente queria justamente usar esse dia para passear por dentro do parque.

Como a ideia era um dia mais sossegado, nos demos ao luxo de acordar um pouco mais tarde, tomamos café no hotel, arrumamos as coisas com calma, fizemos o check-out e começamos o trajeto, parando para contemplar pássaros e até uma simpática raposa:

O primeiro dia deste post começou um pouco nublado, com previsão de chuva, então já estávamos preparados para paisagens mais cinzas. Era o ideal? Não. Mirantes e lagos ficam meio sem graça sem sol, mas o que se há de fazer?

Laguna Amarga e Laguna Azul

Começamos o passeio parando brevemente na Laguna Amarga, de onde se tem uma das vistas mais bonitas para a cordilheira. A laguna está praticamente ao lado da estrada, antes mesmo de entrada do parque, então é muito fácil ir até lá. E mesmo em dias mais fechados, a paisagem é deslumbrante.

De lá, seguimos de carro pelo parque até a portaria Laguna Azul, parando na Cascada Paine no caminho. Tiramos algumas fotos e continuamos nosso trajeto até a portaria.

A região onde está a Laguna Azul fica na parte norte do parque, próxima à portaria de mesmo nome, e é considerada por muitos o segundo melhor ponto para avistar as Torres del Paine, perdendo apenas para a trilha até a base.

O acesso é feito por uma estrada que parte um pouco antes da entrada da Laguna Amarga, com desvio à direita, onde há um estacionamento para deixar o carro. É um rolê muito tranquilo para quem está fazendo um passeio de carro pelo parque.

O lugar estava completamente vazio quando chegamos, talvez por ser mais afastado dos pontos mais visitados. Sequer houve verificação de ingressos ou qualquer outro tipo de conferência.

Tenho a impressão que, em geral, as pessoas não fazem passeio pelo parque de carro. Ou vão para fazer as trilhas ou contratam tours com agências. Uma situação bem parecida com o que vimos no Atacama, onde também encaramos o desafio de fazer os passeios por conta própria.

Apesar de ficar meio longe das áreas mais movimentadas, garanto que a visita à Laguna Azul vale muito à pena.

A laguna tem uma beleza própria, que fica ainda mais impactante com as Torres ao fundo, e o entorno é um ótimo local para avistar fauna típica da Patagônia, como guanacos e aves. Mesmo com o dia meio cinza, a paisagem estava linda.

Aproveitamos o espaço, com mesas ao ar livre e fizemos nosso lanche. Comemos sanduíches, tomamos suco e voltamos para o carro para continuar o passeio. O dia já estava na metade e ainda tínhamos um parque inteiro para cruzar.

Saímos da Laguna Azul e fomos até outra entrada do parque: a portaria Sarmiento. No caminho, paramos no mirador para mais algumas fotos. Aqui a vantagem de fazer o passeio de carro pelo parque: você tem a liberdade de construir o roteiro como quiser, pode parar quantas vezes sentir vontade e se dar ao luxo de simplesmente mudar os planos.

Miradores pelo caminho e embarcadero Pudeto

Da portaria Sarmiento fomos parando em vários outros miradores pelo caminho: Laguna de Los Cisnes, Mirador Nordenskjöld Lake e alguns outros sem nome definido, mas nem por isso menos bonitos.

Por volta das quatro da tarde chegamos ao Embarcadero Pudeto, bem no meio do parque. O local é bem movimentado porque oferece uma boa estrutura, fica em uma área muito bonita e porque é dali que saem os catamarãs que atravessam o Lago Pehoe e param na Estação Paine Grande, de onde é possível fazer a trilha do Francês.

Aqui vale uma observação. A trilha do Francês é uma das que podem ser feitas mesmo por quem não vai fazer o circuito W. Mas a logística não é assim tão simples: você precisa ajustar muito bem os horários, já que depende de pegar um catamarã até o início da caminhada e, na volta, também precisa estar no cais a tempo de pegar a embarcação de retorno para Pudeto.

A trilha parece ser muito bonita, tem mais de 25 km de extensão (para quem começa em Paine Grande) e costuma demorar umas 8 horas. Muita gente que está fazendo o passeio pelo parque de carro se organiza deixando o veículo estacionado perto da cafeteria e saindo no primeiro horário do barco, por volta das 9h.

Parece bastante desafiador, mas ao mesmo tempo bem legal. Vontade de fazer a trilha a gente tinha, mas infelizmente não houve tempo. Ela chegou a entrar no rascunho da primeira programação, mas depois de algum estudo acabou sendo descartada.

Ali perto da cafeteria também tem início a trilha até o Salto Grande e a trilha até o Mirador Los Cuernos, mas como o tempo estava fechado e já estava tarde, deixamos para fazer as duas no dia seguinte.

Nossa parada em Pudeto, portanto, se resumiu a apreciar a vista, dar uma descansada da viagem de carro pelo parque e comer uns sanduíches, que estavam bem gostosos.

Villa Rio Serrano

Saindo de lá, fomos seguindo por dentro do parque até o setor Rio Serrano. Saímos pela portaria e pouco tempo depois chegamos à Villa Rio Serrano, onde passaríamos a noite.

Quase que simultaneamente, a chuva chegou. Apesar de persistente, era uma chuva fraca, quase uma garoa. Só que isso deixou tudo esbranquiçado e intensificou o frio.

Ainda assim, mesmo com bastante nebulosidade, deu para notar que a Villa Rio Serrano é linda. Pra mim, fica em um dos locais mais bonitos de Torres del Paine. Ela está em um vale, possui lagos no entorno e é cercada por montanhas lindas.

Aliás, toda a nossa experiência em Rio Serrano contribuiu para que eu tivesse um carinho especial pelo lugar. Como mencionei brevemente no segundo post, em Rio Serrano ficamos em uma hospedagem bem diferente: uma tenda.

Mas não era qualquer tenda, era a tenda! O nome do local é Riverside Camp Chilenativo. Basicamente são algumas tendas, cada uma com banheiro privativo, dispostas em volta de uma cúpula principal onde funcionam a recepção e o restaurante. Para conectar as tendas à parte central há passarelas de madeira.

Essa área central, que é a área comum, tem uma grande parte transparente, possibilitando vistas muito bonitas (quando não está tudo coberto de chuva e neblina, claro). Nela há mesas para refeições, poltronas e sofás.

Tanto a área comum quanto as tendas eram muito confortáveis. A tenda na qual ficamos era bem espaçosa, com cama, aquecedor, roupão e tudo o que é necessário para um bom descanso. Isso sem contar que tinha uma decoração muito caprichada.

Depois que nos acomodamos, fomos ao restaurante para jantar. E aí vem a melhor parte: a comida, já incluída na diária, era sensacional. Um menu fechado, em vários passos, tudo muito elaborado e bem feito. Da entrada à sobremesa, estava tudo perfeito.

Depois de jantar, voltamos para a tenda. E aí veio um dos momentos mais especiais de toda a viagem. Lá fora, a chuva batia suave na lona, naquele compasso que acalma tudo. Mas dentro da tenda, era outro mundo: o aquecedor mantinha tudo quentinho, a cama era confortável e o silêncio era quase absoluto, rompido vez ou outra por uma rajada de vento um pouco mais forte.

Dormir ouvindo a chuva em meio àquela paisagem toda, foi uma experiência que eu não trocaria por nenhum quarto de hotel cinco estrelas.

A chuva que mudou os planos

No dia seguinte acordamos cedo, arrumamos as coisas e fomos ao restaurante tomar café da manhã. A área comum, com sua parte transparente, transformou o momento em algo inesquecível: enquanto estávamos provando as delícias do café, o sol começou a nascer bem na nossa frente. Um espetáculo e tanto!

Terminamos o café, pegamos nosso lanche para o almoço (já que não voltaríamos para almoçar), fizemos o check-out e seguimos viagem.

Nossos planos eram continuar o passeio de carro pelo parque, fazer algumas trilhas e ir para Puerto Natales somente à noite. Mas a chuva não deu trégua. Apesar de o nascer do sol ter sido épico, bastaram alguns minutos para que o céu ficasse completamente encoberto novamente.

Até tentamos fazer uma das trilhas mais curtinhas, como a do Glaciar Grey, mas não deu certo. Esperamos por algumas horas para ver se o tempo melhorava, mas não houve acordo, a chuva só aumentava.

Com isso, mudamos os planos e fomos para Puerto Natales mais cedo. Lá, a chuva não atrapalharia tanto, principalmente porque nossa próxima hospedagem era bem especial.

Lógico que sair mais cedo do parque não foi uma decisão fácil. Havíamos feito vários planos para aquele dia e eles envolviam passear pelo parque até o fim da tarde. Queríamos fazer as trilhas Los Cuernos, Salto Grande, Glaciar Grey… enfim, várias coisas estavam na lista, mas infelizmente dependiam de um dia de sol, que não veio naquele momento.

Lembram que comentei logo no início dessa série de posts que é preciso se preparar para lidar com a instabilidade do tempo? Pois bem, é justamente esse o ponto.

Às vezes, ficar brigando com a chuva não só não resolve o problema, como gera mais estresse e frustração. É preciso aceitar que as coisas nem sempre vão sair como o planejado. E sabem de uma coisa? Também está tudo certo.

Dias cinzas podem revelar gratas surpresas e, às vezes, mudar os planos abre portas para uma infinidade de outras possibilidades.

Puerto Natales

Já que o jeito foi adiantar o retorno à Puerto Natales, nada melhor que aproveitar a mudança de planos. Chegamos e fomos direto tomar um café na Cactos, uma cafeteria bem simpática. Provei um entremet de limão que estava sensacional.

De lá, fomos até o hotel Simple Patagonia, nossa casa pelos próximos dois dias. O hotel é lindo, uma construção muito estilosa, que imita um galpão de madeira, bem dramática e com a cara da patagônia.

Os quartos, todos com vista para as montanhas e para o mar, são muito confortáveis, com direito a piso aquecido e tudo. O quarto no qual ficamos era bem grande, com cama confortável, banheira… uma graça.

Uma das razões para nossa escolha pelo Simple foi o restaurante. Para quem nos acompanha por aqui, já deu para notar que valorizamos comer bem. Uma boa experiência gastronômica faz toda diferença.

Logo que fizemos o check in no hotel já reservamos o jantar para mais tarde. O que posso dizer é que valeu muito a pena. Provamos um ceviche de entrada que estava perfeito. Da mesma forma, os pratos principais eram excelentes, ainda mais acompanhados de um bom vinho. Lógico que um jantar assim tem um custo, mas o conjunto de sabor, ambiente e serviço vale cada centavo.

Enquanto estávamos curtindo o jantar, ficamos planejando o dia seguinte. O plano inicial era passear no entorno do parque, visitando mirantes e fazendo uma trilha curtinha chamada Ferrier Lookout, sem entrar no parque novamente, já que havíamos comprado o ingresso para até três dias.

Mas avaliando a situação e levando em conta que já estávamos ali e havíamos deixado para trás algumas trilhas bem legais dentro do parque, chegamos à conclusão de que, se fizesse sol, voltaríamos a Torres del Paine, mesmo tendo que comprar os ingressos novamente.

Foi exatamente nesse dia que entendemos que é melhor comprar ingressos para mais dias no parque do que ter que comprar novamente depois. Melhor pecar pelo excesso.

De todo modo, ficar remoendo uma escolha errada não ajudava em nada. Por isso, aproveitamos que estávamos em um hotel lindo, em uma cidade encantadora, e fomos viver o momento. Não dá mesmo para reclamar de estar em Puerto Natales, que é uma cidade linda.

Além disso, a vista pelas grandes janelas de vidro do quarto era de tirar o fôlego, algo que não combinava com qualquer sentimento a não ser gratidão.

Chovia quando fomos dormir, mas as mochilas já estavam prontas. Esperança não faltava. E não é que no fim das contas as coisas deram certo? O sol brilhou com força ao amanhecer.

No próximo capítulo dessa saga vocês vão descobrir se todos os planos saíram como o esperado, se o dia de sol se manteve e se tudo coube no nosso roteiro.😄

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