Torres del Paine: Chegada e primeiras impressões

Nossos planos eram chegar à cidade de Punta Arenas à noite, descansar e, no outro dia, perto da hora do almoço, pegar o carro e seguir para Puerto Natales.

De fato, era um bom plano. Mas como eu costumo dizer, a vida está aí para mostrar que os planos nem sempre saem do papel.

Por mais que a gente tente prever as possibilidades, ajustar tudo e organizar nos mínimos detalhes, existem inúmeras situações que saem completamente do nosso controle. E quem se dispõe a viajar precisa saber que imprevistos acontecem.

No nosso caso, bastou um atraso no voo de São Paulo para Santiago. A conexão se foi e com ela nossa perspectiva de uma viagem tranquila, sem noites mal dormidas.

Tivemos que passar algumas horas em Santiago, em um hotel oferecido pela LATAM. Lá jantamos e descansamos umas duas horinhas. Na madrugada voltamos para o aeroporto e aí sim pegamos o voo para Punta Arenas.

Com isso, chegamos lá por volta das nove da manhã, pegamos um táxi e fomos até o apartamento que já estava reservado. Ao menos conseguimos tomar banho e café da manhã.

Dado o adiantado da hora, não deu tempo de descansar. Só ajeitamos as coisas e fomos à locadora pegar o carro para seguir viagem. Antes de partir, contudo, fomos almoçar.

Escolhemos um restaurante chamado Luan’s, com um cardápio de comidas chilenas e colombianas. O lugar é bem legal, com uma infinidade de objetos espalhados pelas paredes (discos, violão, quadros, pratos), tudo bem colorido e aleatório.

Fellipe pediu um peixe com patacones (massa com bananas amassadas) e eu fui de salmão com mariscos e purê de batatas.. Depois de uma noite mal dormida, um restaurante acolhedor e uma comida saborosa são reconfortantes. Sem dúvida o lugar vale a visita.

A simpática Puerto Natales

Saímos de lá, paramos em um supermercado para comprar água e partimos. Já era mais de três da tarde e a viagem até Puerto Natales dura mais ou menos três horas.

A estrada é ótima e o caminho, lindo. Nos deparamos com muitas aves por todos os lados, assim como guanacos e emus. Além disso, até um cão-gambá deu as caras, mas não se deixou ser fotografado.

Chegamos em Puerto Natales perto das sete da noite. Mesmo sendo quase inverno, o sol se pôs tarde e, quando chegamos, ainda estava claro. O tempo, apesar de fechado no início do percurso, foi se abrindo e a tarde ainda nos brindou com um pôr do sol espetacular.

Puerto Natales é uma cidade pequena, interiorana e tranquila, com aquela atmosfera patagônica de fim de mundo (no bom sentido). Fica à beira do Canal Señoret, com vista para montanhas nevadas ao fundo. Definitivamente, foi amor à primeira vista.

As ruas são calmas, os prédios são baixos e coloridos e dá pra sentir, já na chegada, que o ritmo ali é outro. Há muitos cafés, lojinhas e alguns monumentos (inclusive um chamado La mano de Puerto Natales, bem semelhante ao monumento La Mano, em Punta del Este).

Nosso apartamento, alugado através do Airbnb, era pequeno e aconchegante, com uma mini cozinha bem funcional. Tudo estava impecável, mas o melhor, sem dúvidas, era a vista. Uma enorme janela de vidro permitia uma visão privilegiada da água e das montanhas.

A vontade era ficar ali só observando as luzes do entardecer, mas precisávamos seguir com nossos compromissos de viajantes: nosso apartamento tinha cozinha e não podíamos desperdiçar a oportunidade de preparar algo bem legal para começar bem a viagem.

Fomos ao supermercado e compramos, além de cogumelos frescos para o jantar, alguns snacks para os próximos dias, inclusive pão e atum, que podem salvar a vida de um viajante mais aventureiro.

Compras feitas, voltamos para o apartamento. Em seguida, fizemos o jantar, uma massa com molho de manteiga e cogumelos, arrumamos tudo e fomos dormir.

No outro dia cedo, abrimos as cortinas para ver o nascer do sol. Por ser outono, o sol só nasceu depois das oito. Enquanto o dia ia clareando, fomos arrumando as malas para deixar tudo organizado.

Saímos para tomar um café da manhã/brunch por volta das nove e meia. Fomos ao Holaste Coffee, um lugar agradabilíssimo, com um café e uma comidinha sensacional.

Saímos de lá e voltamos ao apartamento só para pegar as coisas. Paramos em outro café, o Guana Coffe, e pedimos um sanduíche para a viagem, pois não havia restaurantes ou lanchonetes no percurso que pretendíamos fazer.

A tarde seria dedicada a percorrer algumas estradas no entorno de Puerto Natales, já seguindo na direção de Torres del Paine, então sabíamos que não teríamos estrutura de comida nem outras cidades pelo caminho.

Nossa base em Cerro Castilho

A primeira parada do nosso roteiro foi no Monumento Natural Cueva del Milodón, que fica pertinho de Puerto Natales e é uma visita que vale muito a pena, especialmente para quem quer encaixar um passeio mais leve na chegada ou na saída da viagem. 

O lugar protege enormes cavernas, onde foram encontrados vestígios da Preguiça Gigante (Milodon darwini), animal pré-histórico que viveu na região, que pesava cerca de uma tonelada e tinha garras afiadas e pelagem farta, que possibilitava sobreviver na região mesmo com as temperaturas muito baixas. Além disso, o parque ainda mostra um pouco da história dos primeiros habitantes da Patagônia. 

Compramos os ingressos na portaria e já começamos a caminhar pelo local. A visita é bem tranquila, feita por trilhas e passarelas sinalizadas, então não tem muito segredo: dá para circular com calma, olhar os mirantes e conhecer o centro de interpretação sem nenhuma dificuldade.

O lugar é realmente impressionante, principalmente as cavernas. Uma delas possui quase 30 metros de altura, escavada numa rocha que domina a paisagem. No interior da caverna há uma estátua do milodonte em tamanho real, parada obrigatória para fotos.

Passeio feito, voltamos para o carro e fomos seguindo pela estrada secundária Y-200 até o pueblo de Cerro Castillo, que foi nossa base de hospedagem para as duas noites seguintes. Escolhemos essa rota em especial porque havíamos lido que tinha paisagens bem bonitas e muita chance de avistamento de aves. É uma estrada, em grande parte, de terra, mas estava em boas condições.

De fato, no trajeto até Cerro Castillo, vimos muitos pássaros. Nos chamou atenção, de cara, uma águia enorme e vários condores, os quais sobrevoavam uma área de morros e pedras.

Também vimos muitos guanacos, mas estes já fazem parte do cenário comum da região, então, não encontrá-los não foi uma grande surpresa. Inclusive, no Atacama também cruzamos com eles por diversas vezes.

Chegamos a Cerro Castillo de tardezinha, fizemos check-in no hotel El Ovejero Patagônico e fomos dar uma volta para conhecer o povoado.

No entanto, aqui, me sinto na obrigação de já alinhar as expectativas. Povoado talvez não seja a melhor definição para Cerro Castillo. O local é muito pequeno, parece mesmo uma fazenda. Algumas ruas, poucas delas asfaltadas, com umas pousadas e praticamente nada de comércio.

Tamanha a tranquilidade do local que uma ovelha pastava tranquilamente no canteiro central e a viatura da polícia fazia a ronda na maior calma, acompanhada por cachorros que pareciam se divertir com a brincadeira.

As imediações de Cerro Castilho também são muito bonitas, com um descampado enorme coberto por capim dourado, que ficou ainda mais expressivo com a luz do fim de tarde. Para completar a paisagem, as montanhas ao redor davam o contraste perfeito.

Apesar de Cerro Castilho ser menor que eu havia imaginado, para minha surpresa, as instalações do hotel eram muito boas. Tudo muito limpo, quarto grande, cama confortável e roupa de cama excelente. Devo dizer que o local é bem peculiar, com uma decoração bastante específica, mas tem um charme todo seu.

O único ponto negativo é que o jantar do hotel é bem caro, acima da média, e é estilo buffet. O sabor também não estava lá essas coisas (não que fosse ruim, mas não valeu o preço de jeito algum). Como não há outro local nas proximidades para jantar, o hóspede fica sem escolha.

Ainda assim, no nosso cenário, o custo-benefício geral de se hospedar em Cerro Castillo foi bom. Explico: o dia seguinte do nosso roteiro era a grande estrela da viagem: a trilha até a Base das Torres. Por isso, era importante ficar mais próximo da entrada da Laguna Amarga, de onde se chega mais facilmente ao início da trilha.

Só para ficar claro: de Puerto Natales até a Portaria Laguna Amarga são 114 quilômetros. Já de Cerro Castillo até lá são apenas 55 quilômetros, o que reduz pela metade o tempo de deslocamento até o início da trilha.

Depois do jantar meio inflacionado, nos agasalhamos bem e saímos de carro para ver o céu. Estava tão lindo que não resistimos e fomos nos afastando da cidade em busca de um local mais escuro. Com isso, conseguimos algumas boas fotos das estrelas. Mesmo com o frio, valeu a pena a aventura noturna. De volta ao hotel, fomos arrumar as mochilas para o dia seguinte.

Depois desse início de viagem encantador, com uma estrada linda, guanacos, vista para o mar e o céu estrelado de Cerro Castillo, era hora de encarar o grande desafio: a trilha até a Base das Torres. No próximo post, conto em detalhes como foi esse dia intenso, os perrengues e a sensação de finalmente ver as torres de perto.

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