Pantanal Norte: dias incríveis pela Transpantaneira

Toda vez que me deparo com lugares fora da curva, me coloco no meu lugar de simples criatura. Passar alguns dias no Pantanal foi justamente assim.

Mais que um roteiro, eu quero dividir com vocês a minha visão não só do Pantanal, mas do quanto somos uma parte minúscula de um todo muito maior.

Essa viagem aconteceu há quase um ano. Ainda assim, eu me lembro de detalhes de tudo o que vi e ouvi. Mais do que isso, é vívida a lembrança de tudo que eu senti.

Se você chegou por acaso neste post, não deixe de ler os anteriores. Esse aqui é o último de uma série de três relatos sobre nossa viagem ao Pantanal norte.

Primeiras impressões

Nunca me deparei com um verde tão bonito. A cor da vegetação rasteira sobre a água que se espalhava como um espelho é difícil de descrever. Toda vez que os raios de sol clareavam os riachos, um mundo de cores nascia. E com ele, os sons mais impressionantes.

Sempre gostei de pássaros. De ouvir os sons, observar os detalhes e ao final tentar identificar a espécie. No Pantanal, isso é até difícil, porque são tantos sons que eles se misturam. E são tantas aves em revoada, que é quase impossível escolher para onde olhar.

Talvez por toda essa overdose de natureza, nosso deslocamento da cidade de Poconé até a pousada Aymara demorou bem mais que o previsto. Um trajeto que deveria demorar menos de uma hora durou mais que duas horas.

Assim que entramos na Transpantaneira, já nos deparamos com um tamanduá-bandeira à beira da estrada. Ficamos tão sem reação que nem fotos conseguimos tirar.

Passada a surpresa com o tamanduá, paramos para observar alguns pássaros enormes sobre porteiras, copas de árvores e palanques de cerca. Alguns metros à frente, jacarés tomando sol tranquilamente.

A cada ponte, uma parada para fotos. Por mais que tenhamos tentado seguir o plano, era impossível não fazer pausas no caminho. Com isso, chegamos à Aymara por volta das quatro da tarde.

Aymara Lodge: mergulho na natureza

Assim que chegamos à pousada, um dos guias, o Pablo, já estava nos esperando. Havia um passeio de canoa pelos corixos (pequenos cursos d’água, canais ou braços de rio) para aproveitar o entardecer e, mesmo sem que tivéssemos combinado antes, ele imaginou que a gente gostaria de participar.

Evidentemente, ele acertou em cheio. Nem tiramos as coisas do carro. Colocamos roupas mais apropriadas para lidar com os mosquitos, passamos protetor e repelente, fizemos um lanchinho que já estava disponível no restaurante, pegamos câmera e binóculo e seguimos.

Como não tenho muita experiência com canoa, o Pablo ficou em uma comigo e com o Fellipe. Na outra, havia um casal de turistas de outro país, acredito que ingleses.

Passamos as duas horas seguintes passeando pelos corixos que ficam nas proximidades da Aymara, recebendo todas as informações do Pablo, um biólogo nitidamente apaixonado pelo que faz.

Talvez por isso, a experiência tenha sido além de qualquer expectativa. Com calma e tranquilidade, conseguimos parar para observar toda a sorte de pássaro. E olha que foram muitos, mais que consegui contar.

Retornamos no fim da tarde, quando já começava a escurecer. Aí sim fizemos o check-in, nos alojamos no nosso quarto e fomos conhecer a pousada.

A Aymara é uma pousada que fica no quilômetro 25 da Transpantaneira. Dá para dizer, portanto, que ela está na parte inicial da estrada, mas completamente inserida no bioma do Pantanal.

O lugar não é apenas uma pousada, mas um destino em si mesmo. A Aymara fica em um refúgio ecológico e oferece diversas atividades que podem ser feitas ali mesmo, como trilhas, passeios de canoa e observação de aves que costumam ficar nas árvores que compõem o jardim.

Apesar de ficar em um local relativamente remoto, a pousada tem uma excelente estrutura. Os quartos são muito confortáveis, com decoração rústica e bonita. Há um restaurante grande, onde são servidas todas as refeições (café, almoço, lanche e jantar) e um bar que funciona como uma sala de estar, por assim dizer.

Além disso, há uma piscina que parece ser muito agradável, mas não tivemos nem tempo de usar, tamanha a nossa empolgação para os passeios.

Por falar em passeios, assim que chegamos do passeio de canoa, nos aprontamos para o passeio noturno, no melhor estilo safári, o qual incluía percurso pela Transpantaneira e por dentro da propriedade da Aymara.

Assim que terminamos de jantar, já saímos para ver o que a noite nos reservava. Vimos inúmeros jacarés, alguns pássaros noturnos, um tamanduá saindo da água e um céu estrelado daqueles. Lógico que as fotos não ficaram lá essas coisas, até em razão de ser noite e os bichos estarem em movimento. Mas vale a intenção.

Um dos momentos que mais me marcou nesse passeio foi ficar na escuridão total, com o carro desligado, observando o céu e ouvindo todos aqueles sons misteriosos que a noite no campo traz.

Quando retornamos para a pousada, já ajustamos com o guia os passeios dos dias seguintes: basicamente, tudo o que estava disponível entrou na nossa agenda. Nossa hospedagem era curta, então não havia tempo a perder.

Tivemos uma tranquila noite de descanso e, de madrugada, saímos para o primeiro passeio do dia. O mini perrengue de ter que acordar de madrugada não foi nada comparado à magia de ver o sol nascer no Pantanal.

Algumas das paisagens mais bonitas da viagem foram vistas nesse passeio. Conforme o dia ia clareando, os pássaros iam sobrevoando a planície. Aracuãs, gaviões, garças, papagaios, colhereiros, martim pescador e tuiuiús se mostravam sem qualquer timidez, deixando claro que são, de fato, os donos do lugar.

Depois de algumas horas de passeio, retornamos para a pousada, onde tomamos café e já fomos fazer um passeio de canoa. Mais uma vez, tivemos momentos memoráveis, apreciando a fauna e a rica vegetação das áreas alagadas.

Chegamos à pousada ali pelo meio da manhã, descansamos um pouco, almoçamos e fomos fazer uma trilha à tarde. Avistamos pássaros e notamos a presença de porcos do mato, mas não os vimos (certamente eles nos viram). Foi uma caminhada divertida e agradável, quase toda em área de vegetação mais alta. Até vimos um pequeno antílope quando estávamos no carro, mas ele foi mais rápido que nossas lentes.

No fim da tarde, fomos fazer um safári que se estendeu pela noite. Vimos jacarés, garças de vários tipos, curicacas, pistacídeos, tuiuius, uma tartaruga e até uma cobra na estrada.

Chegamos na pousada já depois das oito da noite e fomos jantar para, enfim, descansar, afinal o dia havia sido longo.

No dia seguinte, nossa última manhã na Aymara, optamos por não fazer passeios de madrugada. Como iríamos seguir para Porto Jofre à tarde, achamos melhor ter uma noite de sono mais longa.

Com isso, fizemos apenas uma trilha durante a manhã, a qual teve como objetivo observar pássaros que costumam aparecer nas imediações da pousada.

Foi um passeio excelente, ainda mais porque o Pablo foi explicando detalhadamente sobre cada um dos pássaros que apareceram. E mais uma vez, não foram poucos!

Ficamos na Aymara até a hora do almoço, fizemos nossa refeição e já seguimos para Porto Jofre, pois não queríamos chegar lá à noite.

Rumo a Porto Jofre

Mais uma vez, subestimamos as belezas da Transpantaneira. A viagem que deveria demorar três horas demorou cinco. Não porque a estrada estava ruim (estava regular), mas porque era impossível não parar para observar a paisagem.

Chegamos em Porto Jofre no comecinho da noite e fomos até a Pousada Berço Pantaneiro. Lá, fizemos o check-in, jantamos e fomos descansar.

Quando reservamos a hospedagem na pousada, já contratamos um passeio de barco para observação de animais, cujo foco principal era o avistamento de onça-pintada.

A região de Porto Jofre é a área com maior concentração de onças-pintadas no mundo. Ali também se localiza o Parque Estadual Encontro das Águas, nas bacias dos rios Cuiabá, Piquiri, Cassange, Pirigara, Três Irmãos e Alegre. É o Pantanal raiz, por asim dizer.

É uma região linda, com 108.960 hectares, onde é possível avistar diversas espécies de aves e mamíferos, em geral através de passeios de barco pelos rios.

Cientes de tudo isso, mal podíamos esperar para começar o passeio. Deixamos tudo organizado e tivemos uma noite de sono tranquila.

A Pousada Berço Pantaneiro nem se compara à Aymara em termos de organização e estrutura. Mas oferece o básico, que já é muito em se tratando de uma pousada no meio do nada: o quarto estava limpo, o ar-condicionado funcionou normalmente e não tivemos problemas com a comida. Tudo simples, mas gostoso.

Passeio de Barco em Porto Jofre

No dia seguinte, acordamos cedo, tomamos café e seguimos a pé até o porto, onde um barco nos aguardava. Conversamos com o piloto brevemente e embarcamos. O passeio dura o dia todo, é bem cansativo, não é barato, mas vale muito a pena.

Vimos muitas aves, algumas ariranhas e paisagens lindas, dessas que mais parecem uma montagem, de tão perfeitas.

O passeio já estava ótimo, mas o melhor estava por vir. Por volta do meio-dia, a estrela do safári: a onça-pintada. Não apenas uma, mas duas. De acordo com os pilotos das embarcações próximas, era uma fêmea com um filhote já quase adulto.

Tivemos muita sorte porque conseguimos ficar bem perto das onças, em um local com boa visibilidade. Nunca tinha visto onças na natureza e foi uma experiência incrível.

Encerrado o momento onça-pintada, recebemos nossas marmitas através de um delivery de barco. O cardápio era básico, mas a comida estava bem gostosa. Ficamos descansando um pouquinho com o barco perto da margem e seguimos com o passeio.

A esta altura, imagino que devem estar se perguntando sobre acesso a banheiro durante o passeio. Bom, lembram do banheiro Inca durante os passeios em algumas regiões do Atacama? O esquema é mais ou menos o mesmo, com a diferença de que no Atacama não há onças-pintadas.

O negócio é acreditar no piloto quando ele indicar que uma área é segura. Natureza é natureza, não há o que ser feito. O passeio é muito legal, mas tem os seus perrengues.

Durante a tarde, a paisagem continuou linda, mas não vimos mais onças pintadas. Nos fizeram companhia alguns macacos barulhentos e curiosos, que ficavam nos observando de cima das árvores na margem do rio.

Nosso fim de tarde terminou com mais uma imensidão de pássaros e jacarés. Em um passeio como esse, é importante estar atento aos detalhes. Muitas das aves estavam bem no topo das árvores, mas outras, como esse simpático Talha Mar, que estava sossegado em um banco de areia.

Além dele, dois Tuiuiús tomavam um sol de fim de tarde, uma Garça Moura caçava na margem do rio, uma Biguatinga se esgueirava no galho mais alto de um arbusto e um Tucano olhava, pleno, o horizonte, como se estivesse admirando a vastidão daquelas planícies.

Encerramos o passeio perto das cinco e meia da tarde e voltamos para a pousada, cansados, mas com aquela sensação de que o Pantanal nos deu tudo o que tinha de melhor. Jantamos e fomos descansar. No outro dia, tomamos café e nos despedimos de Porto Jofre.

A hora da despedida

Conforme fomos avançando pela Transpantaneira em direção a Poconé, íamos nos despedindo do Pantanal. A vontade era dar meia-volta e começar tudo de novo, mas não é assim que as coisas funcionam.

A viagem de retorno foi tão linda quanto a de ida. Vimos lobinhos, aves de tudo que é jeito, capivaras e algumas ariranhas. O dia estava lindo, tornando tudo ainda mais especial. Demoramos umas quatro horas para chegar até Poconé, de onde começamos nosso retorno para casa.

Passamos quatro noites no Pantanal, totalmente imersos na natureza, conectados a ela e aproveitando cada momento para admirar, refletir e respeitar.

Aquele senso de urgência que nasceu na época das fatídicas queimadas se transformou em compromisso: conhecer, valorizar e, acima de tudo, proteger.

O Pantanal norte me ensinou que a gente não precisa ir tão longe pra encontrar o extraordinário. Às vezes, o mais incrível está aqui, bem pertinho, pedindo pra ser visto com olhos de quem vê pela primeira vez.

Gostou? Compartilhe este post...

Você pode gostar...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *